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Quase metade das cidades do Brasil perdeu área de rios e lagos no último ano; veja lista das mais afetadas
16/06/2026
(Foto: Reprodução) Vista aérea mostra homem de moto no Lago Tefé, afetado pela seca do rio Solimões, no auge da seca
REUTERS/Bruno Kelly
Quase metade das cidades do Brasil tinha, em 2025, menos água em seus rios, lagos e áreas alagadas do que o normal. E esse retrato vem se repetindo há pelo menos quatro décadas: o país perdeu o equivalente a uma área maior que o estado de Sergipe em superfície de água desde 1985.
Os dados são do MapBiomas Água, iniciativa que usa imagens de satélite e inteligência artificial para mapear, mês a mês, toda a superfície coberta por água no território brasileiro desde 1985. O levantamento mais recente foi divulgado nesta terça-feira (16).
A pesquisa mostra uma redução persistente da superfície coberta por água no país e ajuda a dimensionar os efeitos de secas mais frequentes e de mudanças no regime de chuvas. Especialistas associam esse cenário a uma combinação de fatores, como mudanças climáticas, desmatamento, eventos climáticos extremos e alterações no uso do solo.
A redução da superfície coberta por água pode pressionar o abastecimento das cidades, a geração de energia, a indústria, a agricultura e o consumo humano. O levantamento, porém, mede a extensão de áreas cobertas por água vista por satélite, e não diretamente o volume disponível, a qualidade da água ou a segurança hídrica de cada município.
Agora no g1
Cidades com maior perda de água
Em 2025, 2.511 municípios — 45% do total do país — tiveram superfície de água abaixo da própria média histórica, calculada entre 1985 e 2025. Entre os municípios com as maiores perdas estão:
Corumbá (MS): -474 mil hectares (-56,7%)
Cáceres (MT): -189 mil hectares (-54,8%)
Poconé (MT): -103 mil hectares (-61,0%)
Aquidauana (MS): -71 mil hectares (-69,7%)
Barcelos (AM): -35 mil hectares (-6,3%)
Rorainópolis (RR): -23 mil hectares (-22,1%)
Pimenteiras do Oeste (RO): -14 mil hectares (-74,7%)
Chaves (PA): -14 mil hectares (-4,7%)
Barão de Melgaço (MT): -12 mil hectares (-30,1%)
Santo Antônio de Leverger (MT): -11 mil hectares (-51,0%)
Vila Bela da Santíssima Trindade (MT): -10 mil hectares (-54,8%)
Caracaí (RR): -9 mil hectares (-5,5%)
Alto Alegre dos Parecis (RO): -8 mil hectares (-79,0%)
Amapá (AP): -8 mil hectares (-19,3%)
Tartarugalzinho (AP): -7 mil hectares (-29,4%)
As maiores perdas, tanto em volume absoluto quanto em proporção, estão concentradas em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — os dois estados cortados pelo Pantanal. Juntos, eles concentram a Região Hidrográfica do Paraguai, que sozinha perdeu mais da metade de sua superfície de água em 2025: 53,8%, ou 877 mil hectares, em relação à média histórica.
Parte dessa perda tem relação com o tipo de água que está desaparecendo. O levantamento separa a água do país em dois grupos:
De um lado, os corpos hídricos naturais: rios, lagos e áreas alagadas que existem sem interferência humana.
De outro, os corpos hídricos antrópicos, como represas e reservatórios construídos pelo homem.
Hoje, 76,7% da superfície de água mapeada no Brasil é natural, e 23,3% é artificial. Mas as duas categorias seguem direções opostas. Desde 1985, os corpos hídricos artificiais cresceram 69%, ganhando 1,7 milhão de hectares. Já os naturais encolheram 19%, perdendo 3,2 milhões de hectares — justamente a água que abastece rios, lagos e áreas alagadas sem depender de represas.
Esse processo é mais visível em alguns biomas do que em outros. No Cerrado, mais da metade da superfície de água mapeada em 2025 — 55,1% — está em reservatórios de hidrelétricas, e apenas 34,4% é natural. Na Mata Atlântica, 61,5% da água mapeada vem de represas e outras estruturas construídas, a maior área absoluta de corpos hídricos artificiais do país, com 1,3 milhão de hectares.
Proporcionalmente, porém, é a Caatinga que tem a maior fatia de água artificial: 78% do total. Já no Pampa, segundo menor bioma do país, a água natural ainda predomina — 88,1% —, mas a região também concentra a segunda maior área de reservatórios do Brasil, com cerca de 181 mil hectares.
No Pantanal, onde está concentrada a maior parte das perdas de 2025, mais de 99% da superfície de água mapeada é natural. Ou seja, o bioma depende quase inteiramente do ciclo de chuvas e do regime dos rios, sem a "reserva" que represas artificiais poderiam oferecer.
As novas imagens da seca no Brasil
Por que o país perde água há 40 anos?
A análise por década ajuda a entender a escala do problema. A área média coberta por água no Brasil foi diminuindo de forma consistente ao longo dos últimos 40 anos:
1985 a 1994: 19,86 milhões de hectares;
1995 a 2004: 18,71 milhões de hectares;
2005 a 2014: 18,16 milhões de hectares;
2015 a 2024: 17,28 milhões de hectares.
A comparação entre a primeira e a última década mostra uma perda de 2,58 milhões de hectares de superfície de água.
Isso significa que nos últimos quarenta anos uma área de água maior que todo o estado de Sergipe desapareceu completamente.
Em 2025, os dados mostram que o país teve uma ligeira melhora: a superfície de água do país somou 18,2 milhões de hectares. Esse é um número 5,3% maior que o registrado em 2024.
No entanto, ainda é um número abaixo da média histórica, que é de 18,5 milhões de hectares. Ou seja, é um cenário que ainda não representa uma recuperação completa.
"Mesmo com sinais pontuais de recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo", afirma Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água. Segundo ele, como a superfície de água varia naturalmente de um ano para o outro, um único ano positivo não muda essa tendência histórica de queda.
E isso tem explicação: o Brasil está ficando mais seco. E o porquê de isso estar acontecendo é resultado de uma combinação de fatores que vem alterando o regime de chuvas no país.
Um deles é o El Niño, fenômeno que aquece as águas do Oceano Pacífico e altera padrões de chuva em escala global. Inclusive, em 2026 o fenômeno está confirmado. Seu efeito mais comum no Brasil é reduzir as chuvas no Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste, deixando essas regiões mais secas que o normal.
Outro fator é o aquecimento global. Com temperaturas mais altas, a evaporação da água de rios, lagos, solo e vegetação aumenta — o que significa menos água disponível na superfície, mesmo quando o volume de chuvas não muda.
O desmatamento também entra nessa equação, e de duas formas. A primeira é direta: menos áreas de vegetação significam menos umidade liberada para a atmosfera, o que reduz a formação de chuvas — um processo já bem documentado na Amazônia. A segunda é física: os métodos usados para desmatar, como queimadas e movimentação de solo, afetam diretamente o curso e o volume de rios e igarapés.
Juntos, esses fatores ajudam a explicar por que o país tem, hoje, menos água em sua superfície do que tinha há quatro décadas — uma tendência que os próximos dados do MapBiomas devem continuar mostrando.
Fogo no Pantanal de Mato Grosso do Sul em anos anteriores
CPA-CBMMS / Mairinco de Pauda
Pantanal tem a pior perda um ano após incêndios
Entre os biomas brasileiros, o Pantanal teve o resultado mais grave: em 2025, sua superfície de água ficou 56% abaixo da média histórica. Foi o único bioma em que todos os 12 meses do ano ficaram abaixo do esperado.
O resultado chega na sequência de um dos períodos mais críticos da história recente do bioma. Em 2024, o Brasil enfrentou a pior seca já registrada, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão do governo federal.
No Pantanal, a combinação de seca extrema e calor fez os incêndios da região superarem, já em junho daquele ano, os números do mesmo período de 2020 — até então o pior ano de queimadas já registrado no bioma.
Os novos dados mostram que a superfície de água voltou a crescer no Pantanal em 2025 — um aumento de 34% em relação a 2024, quando o bioma teve sua pior marca histórica, com 506 mil hectares. Ainda assim, mesmo com esse avanço, o Pantanal terminou 2025 com 679 mil hectares de superfície de água, bem distante da média histórica de 1,56 milhão de hectares.
Para Mariana Dias, pesquisadora da equipe do Pantanal no MapBiomas, o que mudou não foi apenas a quantidade de água, mas também a dinâmica hidrológica do bioma. Segundo ela, a década de 1980 foi marcada por grandes enchentes no Pantanal, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas. É essa alternância entre períodos secos e úmidos que sustenta a biodiversidade do bioma.
Melhora na Amazônia após crise de seca
Entre os biomas, a Amazônia teve o melhor desempenho em 2025. Após dois anos seguidos de seca severa, a região ficou abaixo da média histórica em apenas dois meses do ano, terminando 2025 com uma superfície de água 2,6% acima do esperado.
O Pará teve o maior ganho de água do país, com 142 mil hectares acima da média histórica. O Amazonas teve o terceiro maior ganho entre os estados, com 87 mil hectares — atrás de Goiás, que registrou 91 mil hectares de aumento.
A Amazônia concentra 61,4% de toda a superfície de água do Brasil — o equivalente a 10 milhões de hectares, uma área maior que o estado de Pernambuco, quase toda formada por rios, lagos e igarapés naturais.
Mas a recuperação não foi uniforme: 20 sub-bacias amazônicas, ou 37% do total, ainda têm superfície de água abaixo da média.
E isso afeta diretamente comunidades ribeirinhas. Pelo menos a metade delas vive a até 50 quilômetros dos 12 principais rios da Amazônia, dos quais depende para transporte, pesca e abastecimento.
“A recuperação da superfície de água na Amazônia em 2025 é um sinal positivo após dois anos de seca severa (...) No entanto, mesmo com essa recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo, já que na região eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes", explica Bruno Ferreira, pesquisador da equipe da Amazônia do MapBiomas e do Imazon.